Impressões 2/3
Depois de um bater de pernas pelo centro de São Paulo, lá estava a Pinacoteca. A primeira vez que fui lá, no início desse ano, me maravilhei com a arquitetura, algo que se nota no primeiro olhar, e depois fui descobrindo que existia muito mais a ser visto lá dentro. E dessa vez não foi diferente.
O motivo inicial era a exposição de Matisse, mas logo na entrada a surpresa das grandes piscinas azuis com tigelas de porcelana. A cada batida um novo som, elas compunham entre si suas próprias músicas, sem pretensão alguma de agradar a nós meros espectadores. O lugar ideal para se meditar.
Foco, tanta coisa pra ver, vamos ao Matisse. Lá estava ele, cercado de suas pombas e odaliscas, brincando com as cores como bem lhe entendia. Confesso que não conhecia a fundo o trabalho dele – ainda não conheço, a pretensão agora foi minha – mas gostei de saber o quanto ele abertamente se inspirava em outros pintores, sem medo disso ser alguma forma de falta de criatividade, muito pelo contrário, inspiração certamente, reverência também, mas com um resultado final só dele. O recorte em papel tem um toque especial na combinação de cores gritantes e formatos inusitados. Aqui abro um parêntese: ao meu lado, duas crianças acompanhadas da mãe, falam em alto e bom tom: “mas mãe, isso é tão feio, eu sei fazer isso bem melhor”. A mãe, toda constrangida, pede desculpa com um olhar e sai puxando os meninos. E nós aqui, buscando incansavelmente estes olhos de criança.
Fecha parêntese, outros grandes aguardam: Tarsila, Anita, Segall no acervo. Ando mais um pouco e lá estão, a minha espera, as esculturas de Rodin. Quando nos encontramos pela primeira vez era verão, uma luz fantástica incidia sobre elas. Sentei num banco e fiquei por ali alguns bons minutos vendo dor, força, paixão e desejo naquelas figuras tão logicamente duras e estáticas. Neste novo encontro, sua beleza agora era outra, já nos conhecíamos, observei-as como um amante que já conhece cada parte do corpo do amado. Encontrei novos sentimentos e melhor, outros observadores. Dessa vez eu não estava sozinha nessa paquera.
Às vezes acho que me apaixono fácil demais, pois no dia seguinte, lá estava eu, completamente entregue a Bresson. Ah, Les françaises!
Henri Matisse /La Desserte/ 1908






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