O penico do rei
Remos de jangada, tapetes de ioga, iPods. A maioria passa pelo processo: novidade, utilidade e descarte. Mas qual a triagem do que fica para a posteridade? O que realmente é patrimônio? Quem escolheu que o penico do rei ia para o museu e que a mesa talhada da famÃlia camponesa não?
Qual a importância do indivÃduo comum na construção de nosso passado e como isso se reflete no nosso presente e futuro são perguntas em pauta desde os anos 30. Isso implica em entender a configuração do poder nas sociedades e por isso caminham mais lentamente que a tecnologia por exemplo. O perfil de quem escolhe o que vamos contar no futuro tem mudado nos últimos anos, ou ao menos tem sido muito questionado pelas ciências sociais. Jogos de interesses, de fazer bonito no futuro e até de fazer bonito o passado, não acabaram, mas estão em processo de renovação.
Como todos já passaram para o lado de lá, vai ser difÃcil provar, por exemplo, se a primeira missa no Brasil teve ibope de Ãndios atentos de Victor Meirelles. Mas será muito bacana se no futuro tivermos mais histórias de heróis comuns registradas e analisadas como alguns antropólogos já tem feito. A dica de leitura para quem quiser conhecer um pouco de particularidades brasileiras à mostra é o livro do Roberto Damatta, Carnavais, malandros e heróis.
Pensando a história das nossas famÃlias, por exemplo. Já reparou que até o perfil das fotos de aniversário e casamento tem mudado? Os detalhes e particularidades de um evento têm ganhado mais espaço do que as fotos posadas. Aquela foto da avó fazendo a receita secreta interessa mais hoje do que a do aniversariante sorrindo ao cortar o bolo.
As histórias dos indivÃduos têm sabor de veracidade e por isso sua presença na história é tão importante. Guardemos o penico do rei e os documentos históricos, mas também os livros de receitas das avós.






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